“Melanie Klein” e “Atendimento Clínico, I, II e III” – Contratação de Professor – Análise do Processo do PSC

Caros colegas,

Na última congregação discutimos um concurso do departamento de psicologia clínica para professor de Melanie Klein e supervisor em AC 0/1/2/3 (http://rdspsicousp.wordpress.com/2013/08/20/19-de-agosto-de-2013-421-reuniao-da-congregacao-do-ipusp/).

Já na reunião anterior, o concurso tinha se dado, e a banca escolhido sua candidata. Acontece que 3 membros da banca que aprovaram a primeira candidata reprovaram a outra (é possível dar notas diferentes, por mérito, sem reprovar; reprovar é dar uma nota abaixo da média), enquanto os dois restantes reprovaram a primeira e aprovaram a segunda. A  banca foi coordenada pela professora Eva Migliavacca.

Feito o concurso, a vencedora submete seu projeto de pesquisa a um parecerista de nosso instituto; no caso da professora em questão, o projeto recebeu parecer desfavorável do parecerista da nossa casa, por ter, entre outros problemas, metodologia pouco clara e pouca promessa de contribuição no conceito estudado.

Ao mesmo tempo, a segunda candidata mandou a nós uma carta, que solicitava esclarecimentos sobre os critérios da avaliação no memorial. Mesmo com doutorado sanduíche em Paris e experiência de trabalho em universidades São Paulo afora, publicações em revistas, etc., a segunda colocada foi reprovada também no memorial por membros da banca que aprovaram a outra. Ela considerava não ter um currículo reprovável.

Fomos designados eu e a professora Marlene Guirado para lermos o calhamaçante processo para à Congregação submeter um texto de análise. Lemos e recomendamos veementemente a anulação do concurso e sua refeitura. Em outros termos, que nossa Congregação não homologasse o concurso. Não tenho como divulgar integral nossa comunicação-análise aqui, e nem seria o caso, pois aqui jorra a palavra direto da fonte, e direto a quem ela se destina, em última instância, qual seja, o olho público alfabetizado que meus dez teclam.

A análise nossa chegou à congregação, que apreciou como pôde nossa sugestão à luz de alguns impedimentos legais e alguns princípios de justiça, pública ou a nível individual (com esta ou aquela candidata). A inexistência de irregularidades no relatório final do concurso de títulos e provas, que é extremamente enxuto e é assim em todos os concursos, foi fator dificultante para a tomada de decisão, e fica isso como observação suplementar para que possamos brigar por relatórios mais revelatórios.

Em meio ao debate, trouxe o texto que apresento abaixo, que faz referência à reunião anterior da Congregação, na qual pude estar abrindo o assunto das supervisões e me disponibilizando a analisar o concurso (sendo frisada a necessidade, com a qual passei a concordar “a posteriori“, de uma coordenação docente para essa análise). O texto abaixo é de minha autoria, não devendo ser confundido com o outro, o com a professora Guirado.

Meu voto, pela não-homologação, foi vencido depois de 3 horas de discussão e 4 abstenções, com os 5 votos contra 6 a favor da homologação. Votamos, também, por reenviar o projeto à candidata, com o parecer da casa, para refeitura. Depois disso poderemos recebê-lo novamente e então enviar à CERT (que cuida dos regimes de trabalho na USP), que pode reprová-lo novamente e reenviá-lo novamente a uma candidata coberta de chances. Questionei por fim se deveríamos redigir um pequeno tutorial de redação de projetos de pesquisa especialmente para esse caso, acidez essa que  como estilo não representa nem quer representar aqueles que represento habitualmente, mas que não pode passar longe da minha língua. Há algo de cômico na lida institucional.

Thiago Betacarroteno (10)

Do “processo” enfim em questão

 Retomando o que me interessou na leitura desse processo: no semestre passado eu e a turma que comigo aqui entrou em 2010 cursamos a disciplina obrigatória do PSC para o quarto ano, “Atendimento Clínico: O Processo Diagnóstico”. O sorteio de grupos de supervisão foi um pouco diferente do que vinha sendo: fizemos uma lista com todas as 11 possibilidades, em ordem de preferência, que foi submetida à distribuição por sorteio de um programa de computador. A mudança no sorteio, que antigamente permitia 5 opções apenas, deveu-se segundo a professora que coordena a disciplina a uma obrigatoriedade de que todos os professores do departamento (ou todos vinculados à disciplina?) exercessem atividade de supervisão. E nos anos anteriores, vinha havendo professores que não conseguiam formar grupo de supervisão para cumprir esse requisito.

Foi presente durante a disciplina a dificuldade de alguns alunos em participar das supervisões clínicas de seus grupos, que foram desde supervisora negando o fornecimento de leituras e discussões teóricas até outra dificultando o acesso dos alunos à prática em detrimento de alguns prelúdios cujo sentido era pouco justificado em sua função (e ainda, houve o caso, de um grupo dissolvido por problemas ainda mais graves). Eu mesmo sofri uma inflexão na direção oposta à do exercício clínico após um semestre de uma supervisão, já a qualifiquei aqui, sofrível.

É com miras numa dificuldade em compreender como se dá a um psicoterapeuta e professor a autorização, o direito ou a obrigação de supervisionar um grupo de psicólogos embrionários, que tento pensar as questões levantadas em mim pelo processo lido. Falo, por extensão, dos concursos de professores de um modo geral, de que tomei conhecimento, como aluno e membro desta congregação, através de uma única espécie, de um único exemplar.

Da questão do Programa (os pontos), do concurso: como ele se produz? Sabemos que não fazemos qualquer coisa de completamente monotônica, ou simples a ponto de contabilizarmos um número limitado de pontos que cobririam todo o campo em que é desejável um professor saber se situar com conhecimento para ser admitido como nosso par; tal contabilismo nem é desejável, inclusive, dadas todas as tendências que temos de impossibilitar a irrupção do que nessa conta seria o mais-um, o algo novo.

E embora tampouco esteja à nossa disposição um modelo pronto de síntese total dos pré-requisitos (técnicos, éticos, intelectuais) a orientarem nosso concurso, como uma máxima a se fazer imperativa, não podemos com essa limitação nos furtar a pensar que existem, sim, conceitos e categorias organizadoras para dar coerência ao que desejamos buscar, como instituição, naquelas e naqueles que futuramente serão nossos membros orgânicos1. O Tripé ensino-pesquisa-extensão, citado no parecer que escrevi com a professora Marlene Guirado, parece um bom começo para pensarmos.

Isso levanto à luz da leitura que fiz nessas férias do processo para professor especializado na psicanalista inglesa Melanie Klein, em busca do qual estamos. Os pontos como os encontro no edital, têm momentos de repetição que não são tão compreensíveis com respeito à sua função; por exemplo “crianças e adolescentes: Melanie Klein e pós-kleinianos (Bion. Winnicott), que se repetem em três itens (e em se desmembrando os três binômios que a pontuação e os parênteses separam, a reincidência é maior). O item 2 e o item 9 não mostram explicitamente aquilo que os diferencia e o 10º soa como uma extensão deles, bem como o 12º, 14º, de tão sutis que são as diferenças. “Pós-kleinianos”, “Bion e Winnicott”, “Escola inglesa”, não devem ser tomados como sinônimos, mas também não devem aparecer sem mostrar onde se sobrepõem e onde se afastam.

Veja-se, devemos nos lembrar que aos pontos do concurso, que pontuarão nossas candidatas, a eles é dado como destino um sorteio, e que sorteios só funcionam por haver uma lógica. Por exemplo, na Mega-Sena, há apenas uma bolinha para cada número e a mesma chance de cada um desses números cair, sendo cada um exclusivo em seu papel: a lógica é a da não-sobreposição total. Embora não deva ser necessariamente essa lógica de não-sobreposição a que guia nossos pontos, há sobreposições que deixam alguns momentos mais isolados que os outros (por exemplo, o 1, que certamente poderia permear muitos outros e agregar a eles muito valor), fazendo com que algumas partículas se repitam e aumentem sua chance de aparecer.

Além disso, questões muito importantes, já postas por mim e também pelo PSC e que se referem à especificidade do professor no departamento, na medida em que ele é necessariamente um supervisor clínico da graduação, ficam avaliadas de maneira escassa e multiplamente mediatizada e indireta através de pontos que tentam atingir o tema da experiência clínica sem aparentemente poder dizer seu nome e seu peso com todas as letras. Não há disso uma provação.

Posto isso, vemos que não é contingente isso que introduzo como – se me permitem a metáfora em terminologia coerente com o programa em questão – a posição esquizo-paranóide de uma banca que teve (primeiro) coerência absoluta em todas as notas da prova escrita, para todos os candidatos, e, depois, se cinde em antagonismo coreográfico, dois pra lá três pra cá, na aprovação/reprovação de M1/M2. Pelo contrário, essa situação é necessária, na acepção filosófica do termo, ou seja, não tem como não ser (assim). Pelo menos quando nosso programa não fornece diretrizes e instrumental logicamente amarrado para a escolha do formador (podemos pensar de novo: em ensino-pesquisa-extensão) que desejamos ocupando nossos prédios.

Há ainda que se ver a questão do currículo/memorial. Cada uma das candidatas mostra sua trajetória e sua especificidade à sua maneira, com um estilo próprio, recursos de argumento próprios, e inclusive com um tipo de fonte, de numeração de páginas e de formatação própria. Uma das candidatas, vale frisar, tematiza na primeira página de seu memorial a vida de seu pai que segundo ela não necessitava de titulação (Dr.) para ministrar aulas numa importante universidade de nosso país, e isso porque era um clínico de grande envergadura. Está posta a questão, até ali, pela candidata, de quem entra num corpo docente: o clínico ou o titulado, aquilo que o Currículo Lattes vê ou o que ele ignora?

Lembremos que quando a consistência absoluta da banca desaba, e discutimos aqui, em Junho, isso que chamei esquizoparanoidia da banca, o PSC aparece sim, com alguma explicação, eu cito a ata, sem nenhuma intenção de personalização:

“O Prof. Gilberto Safra diz que a questão é o perfil das candidatas. Segundo foi informado, havia uma candidata com forte perfil clínico (a candidata indicada) e outra com perfil mais acadêmico.”

Todavia se é esse o caso, e a banca tinha conhecimento do privilégio a ser dado para essa linha que liga clínica-supervisão, então, das duas, as duas: (1) esse conhecimento se transmitiu por vias outras que não o programa do concurso, que embora roce a prática não a coloca ali como critério (não é prevista avaliação de técnica);e (2) a banca se dividiu mesmo à luz desse privilégio, provando alguma deficiência em sua estruturação, ou então mostrando-se dividida quanto à própria polarização clínica/academia que figura nos elementos acima trazidos.

Novamente, nos memoriais, não se trata de questionar essa banca em detrimento de uma nova, e sim a discussão de que a passagem do “8 homogêneo” da prova escrita para aprovações e reprovações tão contrastadas é marcada por algo que não se mostra com a clareza de um “determinante” no texto processo, mas que como dado novo que aparece agora ressignifica completamente o concurso nos convocando à reformulação: trata-se do destino a ser dado à dicotomia que emerge, o perfil acadêmico na outra extremidade do perfil clínico, e o destino e a formalização que podemos dar a essa dupla-face de modo que ela apareça explícita e organizada no texto em que agora não está contida senão nas entrelinhas.

Isso não se atinge senão pela via de um novo concurso, e que nenhuma pressa nos detenha de correr no sentido certo.

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1 Não é necessário comentarmos que esse corpo institucional não é fim em si mesmo, mas se encontra, isso sim, ele próprio orientado por um conceito de universidade, e de universidade pública de contribuição de ponta que, no plano ideal ao menos, se reconhece no estado e no país de que é ela mesma órgão, mesmo que, como se gosta de dizer, “autônomo”.

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