O Encontro dos Desencontros

Ontem aconteceu uma coisa que achei, no mínimo, bem interessante.

Dois alunos do segundo ano da Psico resolveram chamar a turma e outras pessoas para uma reunião na Pça do Apego, a fim de conversar e organizar as inquietações em relação ao curso. Cheguei a comentar no evento do Facebook sobre o tema da Avaliação de Professores, que será pautada na Comissão de Graduação em setembro, o que será uma oportunidade de levarmos nossas críticas e propostas que circulam sempre pelos corredores.

Depois da ótima reunião pela manhã com o novo diretor, Gerson Tomanari, onde conseguimos levantar diversas questões referentes ao corpo discente, com uma maturidade que há tempos não via nos membros das entidades acadêmicas, fiquei por lá esperando a reunião que aconteceria às 13h.

Quando deu o horário várias pessoas apareceram e diziam estar a espera do Mathias (suplente de RD do PST e projeto de revolucionário, rs.), que supostamente tinha as pautas e os assuntos a serem discutidos. Mas ele não chegou. Nisso conversei com a Andrielly sobre a possibilidade de nós organizarmos, mas eu estava bem de boa, porque estou cansado dessa ideia de sempre as pessoas do CA ficarem pegando os alunos pela mãozinha, então estava ali para acompanhar e opiniar como qualquer outro aluno, e se precisassem de nós enquanto gestão do CA, estaríamos por lá.

Bom, por fim, a reunião não aconteceu. A Andrielly chegou a comentar com o pessoal que não precisavam do Mathias pra conversar, que nós estávamos ali e que isso era suficiente, bastava que fossemos para a Pça do Apego. Segui então o pessoal para a aula do Safatle, sempre muito boa, e vi uma coisa que acredito que tem muito a ver com o que aconteceu. Por mais que a aula do Safatle seja muito clara e concisa, os temas tratados em aula são bem complexos, de modo que muita gente reclama que a aula só fala de Lacan ou Psicanálise, o que é uma crítica bem tosca, já que o Safatle, durante todos esses anos que dá Epistemologia das Ciências Humanas, ainda que centre suas aulas pela Psicanálise, aborda em suas aulas o que é essa tal de Psicologia e qual o seu objeto de análise. Qual o campo com o qual nós trabalhos, o campo do vivido, das histórias narradas, de modo que, ainda que a Psicologia seja uma ciência que esteja entre a Sociologia e a Biologia, existem aspectos do sofrimento psíquico que as teorias dessas ciências não alcançam, o que justifica e embasa a existência de uma ciência do comportamento humano, a Psicologia.

No entanto, percebi que muitas pessoas pareciam não estar entendendo muita coisa do que o Safatle estava falando, mas em nenhum momento vi pessoas questionando, ou tentando retomar o que ele estava trazendo. Isso pra mim tem muito a ver com o que acontece na Psico, de estarmos sempre querendo tudo na mãozinha, como se o processo de aprendizagem não exigisse um esforço intelectual em meio a inúmeros incômodos com conteúdos que não serão compreendidos da noite para o dia, e que exigem muito mais do que a leitura dos textos.

Depois da aula encontrei o Mathias absurdado por conta das pessoas não terem feito a reunião em função da sua ausência. Por que sempre precisamos de pessoas como referências, em vez de nos referenciarmos naquilo que nos motiva a estar em um determinado lugar?

Quando leio Paulo Freire falando que a escola tem o compromisso de formar sujeitos políticos, compreendo que não cabe a escola nos formar apenas enquanto mão-de-obra para termos a segurança e garantia de um emprego futuro, mas para que a partir daquilo que aprendemos em sala, em conversas, em leituras, conquistemos opiniões próprias, reconhecendo nossas crenças, nossos valores, não como valores universais, mas como nossos, sempre passíveis de serem mudados conforme vamos vivendo.

Igor e João Vitor

No final da aula, em que o Safatle fez uma retomada de todo o semestre, ele comentou o quanto temos retroagido na medida em que muitas vezes justificamos que um método deve ser descartado se não oferece respostas ou uma suposta eficácia de imediato. Muitos problemas da ciência ficaram durante anos sem ser resolvidos, e, no entanto, não deixavam de ser bons problemas. Mesmo depois de toda a revolução que trouxeram os estudiosos da Psicologia, e que mostraram o quanto o modo como o paciente relata sua doença participa da constituição desta doença, ouvimos ainda tantas reclamações sobre como nós, profissionais da saúde, não ouvimos, não escutamos.

Como proceder, por exemplo, em histórias como a de Igor e João Vitor, meninos que moravam em um abrigo e que diziam temer voltar para casa porque o padrasto lhes ameaçou de morte caso voltassem? Quando voltaram, foram por ele esquartejados. “No abrigo, no entanto, os irmãos passaram por avaliação da psicóloga, e deixaram o local com autorização do Conselho Tutelar. Para a psicóloga, as crianças ‘manipulavam a realidade para obter vantagens’ ao dizer que eram maltratadas”.

Fica a questão.

Abraços!

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