Eu não acredito em loucura, mas que loucos existem, existem!

O dia 18 de maio, marco da luta antimanicomial, surgiu em 1987 na cidade de Bauru em meio ao Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, propondo novas alternativas terapêuticas aos indivíduos com transtornos mentais.

Tendo esta data como motivação para pensarmos as noções e conceitos de saúde mental, pensamos um evento que abordasse as questões emergentes na sociedade contemporânea. Afinal, quem são as pessoas que frequentam esses serviços?

Entendemos que é preciso dar voz a essas pessoas, sustentando as diferenças, pois quando sustentamos as diferenças sustentamos a pergunta “quem somos nós?”, na medida em que se o outro é diferente de mim, então quem eu sou?

Junto a todo movimento que essa pergunta adquire, movimento que nos leva inclusive a perguntar se existe um eu, a manutenção dela nos mantém na busca pelo que somos, contribuindo para a vivência dessa relação com as outras pessoas, pois se o diferente nos põe a pergunta, o comum nos possibilita uma resposta.

Nesse sentido, torna-se necessário pensar em como dar voz a essas pessoas que consideramos diferentes, para que tal diferença não se configure como desigualdade ao tornar sua fala mero objeto investigativo de alienistas como muito bem retratado no famigerado Simão Bacamarte machadiano.

Esse foi um dos principais motivos para as atividades acontecerem na vivência do CA, pois se a sala de aula sustenta em muitos momentos uma diferença enquanto desigualdade entre aluno e professor, a realização em um espaço consagrado como dos alunos contribui na manutenção desta diferença enquanto igualdade dos que ali estão.

Discussão esta que vai de encontro com a roda de conversa sobre enraizamento, a partir do filme “Estamira”, de Marcos Prado, com a participação dos professores Gustavo Massola e Bernardo Parodi.

Talvez a pergunta que surja seja justamente: “e qual a relação desse tema com a loucura?”. Como a relação entre a temática do enraizamento e a do enlouquecimento se compõem?

Dentre as possibilidades de sentido para essa pergunta, podemos encontrar nas propostas da Frente de Luta Antimanicomial as reivindicações por “direitos humanos”, “assistência social”, “habitação”, “educação”, “cultura”, “trabalho” e “economia solidária”.

Cultura, trabalho e economia solidária carregam a preocupação pela inclusão social para além da mera reinserção social, apostando nesses elementos como meio de dar voz aos que são marginalizados a partir da participação efetiva nas construções sociais, de modo que as pessoas possam se enraizar nos lugares que habitam em vez de apenas ocupar por adequação a ele.

Seguindo por essa perspectiva o trabalho aparece como campo onde se busca reconhecimento. Em um mundo em que as conquistas aparecem sempre como frutos de um esforço individual e não como produto coletivo, ainda ouvimos constantemente o discurso falacioso de que qualquer um pode conquistar seus objetivos se vier a se esforçar. Nesse sentido, talvez possamos atribuir a causa de males como depressão e ansiedade a essa fortaleza pessoal que a cada dia nos constituímos.

Para abordar tais questionamentos convidamos Clayton dos Santos, que faz uma discussão sobre como o trabalho participa da constituição das pessoas, dos sujeitos. Esse trabalho traz várias cenas em que profissionais do ramo do telemarketing são colocados em situações que desafiam os seus limites humanos, tendo que em muitos momentos passar por cima de seus próprios valores para manter o emprego, sendo que vários deles, por consequência, atingem um desgaste tão grande que acabam tendo vários problemas relacionados à saúde mental.

Já na manhã do dia 18 de maio acontecerá a apresentação da peça “A nau do asfalto” por Evinha Sampaio. Doutorada em Artes Cênicas pela USP, Evinha montou sua peça a partir da observação de alguns moradores de rua em quem via movimentos diferentes, muitas vezes repetindo gestos com admirável perfeição. Seu anseio por entrar em contato com essas pessoas, acompanhado do receio por não saber dos riscos que poderia correr, fez com que ela fosse criando formas de expressão do que via e sentia.

Assim, começando com alguns movimentos de dança e, incorporando posteriormente, texto e cena, aos poucos foi elaborando esta peça a partir do que observou nesses moradores de rua, em usuários de CAPS, e em sua própria experiência de vida, resultando numa peça absolutamente sinestésica, que mobiliza a todos que assistem.

Nossa principal proposta com esta semana, que terá seu espaço para discussão na manhã de quarta-feira, é, portanto, proporcionar o contato com algumas questões que perpassam a loucura, sem, no entanto, negá-la em falas que algumas vezes tentam afirmar a existência da loucura em todos nós, e que a diferença seria apenas de grau, ou seja, uma diferença apenas em nível quantitativo.

Dizer que de algum modo todos somos loucos pode ser um modo dos que são marginalizados pelos estereótipos psiquiátricos se afirmarem perante a discriminação social, mas existem outros modos de contribuirmos para que haja maior aproximação entre as pessoas e suas diferenças.

Entendemos que afirmar a diferença que vemos é, portanto, um dos meios para nos colocarmos frente a ela. Acreditamos que todos nós temos o direito de afirmar a uma suposta pessoa que diz ter sido abduzida por alienígenas que nós não acreditamos nela, mas não temos o direito de afirmar que o que ela diz é mentira, deslegitimando o direito dela de falar sobre a própria condição em que se encontra ao nos colocarmos como numa suposta posição de saber sobre a outra pessoa.

Deixamos o convite a todos para participarem das discussões e trazerem suas contribuições.

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2 pensamentos sobre “Eu não acredito em loucura, mas que loucos existem, existem!

  1. Aqui em Cotia fizemos um baile no ASSA da Granja Vianna (Assistência Social Santo Antônio) e contamos com a encenação de pacientes sobre temas como o preconceito e o método carceragem, adotado em manicômios da época. E muito me alegra que essa luta venha ganhando força ao longo dos anos e em todo o território nacional, a saúde mental merece toda essa atenção e todo esse movimento em prol dela. Parabéns pelo trabalho de vocês.

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