Deformativo: Cortiça Libertária

Notas sobre organização, controle e liberdade de expressão

Não podemos confundir liberdade de expressão com libertinagem de afixação, quando o tema são os murais dos corredores de nosso Instituto.

À parte a truncada definição de “expressão”, que num limite pode chamar homicídio de poesia, e no outro chamar três acordes de terrorismo subversivo, sabemos que não é realmente livre um ser que vive num espaço onde tudo é permitido; afinal, só a sua presença, que inaugura uma “outra pessoa presente” para seus pares, estabelece a existência de uma lei social e de um sistema de coordenadas intersubjetivas que escapa ao “tudo é permitido”. E viver como se tudo fosse permitido dentro desse espaço é perder a liberdade diante dos outros, e retirar a liberdade dos outros, também.

Mas ser intersubjetivista é ainda ser pequeno, e as condições objetivas do meio em que se vive – e em que se “expressa” algo – constituem elas mesmas um sistema de restrições bastante sólido. A expressão está profundamente ligada à comunicação, que em tese envolveria duas partes (emissário e receptor da mensagem), mas que só pode acontecer em um meio. Esse meio é, em última instância, o conjunto de condições concretas ou objetivas presentes no ato que se pretende comunicativo, é um pouco de: “o que a realidade aqui-agora autoriza (coloca no campo do “possível”) a A que este expresse a B”.

Essa autorização não é, todavia, controle. Isso porque o que é objetivo perde entre os dedos o polo fundamental de subversão (que é o do sujeito e da chamada intersubjetividade) que entra maciçamente em jogo e consegue expressar quase tudo em quase todas as circunstâncias, sem que qualquer instância censora consiga impedir o ato comunicativo (certamente que é capaz de perseguir e punir, mas isso é outra história).

O que chamo de autorização, aqui, pode ser pensado, para agradar empedestalizadores da linguagem, como aquilo que a história, o presente e a intersecção dos campos das falas consegue deixar “exprimível”: é a forma estruturante que a linguagem assume dentro do campo social.

Dentro disso, a verdadeira liberdade de expressão “seria” apenas num meio que permitisse que emissário e receptor pudessem exprimir/receber do ato expressivo o máximo daquilo que esse ato intentava objetivamente. Afinal, expressão é sempre expressão acerca de seu objeto, e a mensagem nunca conseguirá escapar da estrutura da oração e regredir ao mítico período “pré-gramatical” em que sujeito e objeto não estavam cindidos. Isso não impede, é óbvio, que a mensagem busque criticar ou superar o abismo entre sujeito e objeto: apenas assinala que, se ela o faz, o faz atravessando, esse abismo, não reunindo as duas partes do grand canyon como fora o Mar Vermelho recém-cruzado.

Ora, se a maneira de uma gestão libertária (ou: “que se escorrega sempre para o ponto que assegure a liberdade da comunidade de indivíduos e do indivíduo comunitário”) dos murais deve ser aquela que permite a comunicação e o debate reais, a organização e a estrutura não entram como uma maneira de controlar, mas de lutar contra o controle e a tirania que a “várzea muralista” pode oferecer.

Explicitar aquilo que é concretamente categoria do nosso meio social, e assegurar que essa categorização seja comunitariamente reconhecida, é ponto essencial para que ela possa ser questionada com termos eficientes, e consequentemente mudada para estruturas cada vez mais condizentes com o real da comunidade, que possibilitariam assim a expressão mais satisfatória do que é objetivo para dentro do campo da intersubjetividade.

Batedeira (10)

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