Deformativo: A busca ativa do diálogo não-violento, a primeira visada de um eixo em três tomos

Esse texto se dividirá em três partes, buscando contemplar o tema que o título resume bem.

A primeira contemplará uma questão acerca da “dispersão” existente no currículo da PsicologiaUSP, ignorando propositalmente a realidade de outros cursos, apreciando mais “objetivamente” esta questão e fazendo uma mísera comparação; esse tomo teria como intuito pensar na possibilidade de um “eixo” para esse currículo, no sentido de termo que utilizam os softwares de modelagem 3D (usados em geral para engenharias, eu conheci pela Mecânica): uma linha imaginária, sem substância, mas que funciona como referência para círculos e qualquer coisa que se queira colocar em rotação. O eixo que busco é um meio-termo entre o engessamento e o caos dois perigos constantes

A segunda parte constará de uma distinção arbitrária minha, mas que ofereço à apreciação geral, entre agressividade e violência. Essa segunda parte delimitará o campo adequadamente para eu aplicar a noção de violência (e de não-violência, por extensão) em um terceiro tomo, em que estaremos prontos para apreciar minha hipótese mais recente, a de que o Centro Acadêmico pode visar um eixo que dialogue com um ideal de currículo e que ao mesmo tempo contemple questões de cunho cotidiano e social, resgatando as implicações da vida em uma Universidade Pública; esse eixo seria justamente o da busca ativa do diálogo não-violento como prática (o tomo precisará explicar, também, a extensão que este eixo proposto cobre).

Mother of God, WTF?

Tomo Hum – Do currículo disperso

 

Não tenho (lido) o projeto pedagógico da Psico. Sei apenas a história, as ementas, as disciplinas que eu, amigos, conhecidos e pessoas aleatórias fizeram. Esclarecido isso, sigo mesmo assim.

O fato de nosso currículo ser disperso já deve ser percebido por todos, todavia parece residir na dimensão do recalque de alguns.  Não é com essa dimensão que meu texto pretende trabalhar, afinal ainda não sou diplomado, todavia há alguns dados a se acrescentar que podem incomodar os leitores a pensarem a questão.

O primeiro dado se refere à prática do ensino no nosso instituto: aprendemos com professores que muitas vezes não têm interesse na vida de ensino que são obrigados a seguir, são verdadeiros “pesquisadores que carregam o fardo de horas-aula a dar”. Isso exclui aquilo que quem se interessa mesmo por lecionar tem em si impregnado, que é uma espécie de fantasma da didática, que persegue até dentro do banheiro e na hora de dormir, o “cuidado com ser educador, de fato”. Isso sintomiza-se pela falta de reuniões entre todos os professores que darão aulas para um “ano” (claro que os anos não são seguidos à risca, mas são, por uma maioria, seguidos à risca), tanto no início quanto no fim do semestre.

Disciplinas diferentes às vezes ensinam o mesmo conteúdo, e conseguem muitas vezes contradizer uma à outra na apreciação de seus conteúdos… mesmo assim, não dialogam, e o aluno precisa fazer a ponte sozinho. Ponte entre disciplinas que se contradizem polemicamente ou (a) serão minuciosamente epistemológicas e bem-estudadas, ou (b) serão uma mera “escolha” arbitrária para o lado daquela que vende melhor seu peixe. Sem contar no eterno-retorno (nada nietzscheano) à opção do professor pela “disciplina introdutória” que preparará o aluno para a próxima “disciplina introdutória”… e ninguém de nós faz nada além de introduzir frenéticamente, assombrados ficamos pelo espírito do coitus interruptus.

O segundo dado seria um mais “genético”, ou seja, como nasce o currículo da Psico: nasceu, esse novo currículo, de uma tentativa (muito bela, quiçá poética, que merece respeito) de prezar pela autonomia do estudante (daí a diminuição da carga de obrigatórias e o aumento nas optativas). Acontece que paralelamente a esse apreço, os Quatro Departamentos de Hogwarts continuavam e continuam disputando tudo o que conseguem no espaço do IP, e tenho para mim que são a isso impelidos por questões de sobrevivência (burocráticas, financiamenteiras) e também de reconhecimento (afinal, há uma “má diversidade” da parte das teorias, que é aquela insistência em só aproveitar das outras áreas coisas em que se possa “meter o pau”, e também uma insistência em se afirmar como A Única Psicologia).

Sem cuidado, fatiou-se como uma pizza o nosso currículo entre os 4 departamentos, e ninguém nem direito vê o que o outro come (queijo, calabreza, chocolate…). Então a autonomia fica minada, pois o currículo não prepara para ter autonomia, mas simplesmente exige autonomia. Somos constantemente compelidos a comprar peixes dos quais só vimos os olhos, não as escamas e o lado realmente podre. Isso fica muito claro quando já no segundo ano, os adeptos da psicanálise conseguiram se reconhecer e formar a panelinha que se isola e chacota levemente dos behavioristas, os quais fazem o mesmo, e assim também vai acontecendo com aqueles que curtem um rolê mais neurociências ou então cognitivista. É sutil, mas vê-se.

Cai, certamente, como uma luva num modelo-de-formação que foi contínuo nesse sentido, que é esse modelo “disciplinarista” coroado por um vestibular e que em suas horas de lazer oferece a boa-e-velha “Malhação” para todo mundo aprender exatamente como ter o Espírito de Departamento: forme um grupo de pessoas com quem concorde, (mais-ou-menos, que seja!) contanto que se reconheçam pela negação de outros, vocês ficam juntos, um lambendo o outro para não se sentirem sozinhos.

Nada contra isso (aqui) a não ser que é pobre para o conhecimento, pois exclui a diversidade, o acesso a realidades diferentes, e consequentemente, a autonomia. Não temos como nos formarmos autônomos num currículo que só pode contemplar o auto-elogio e a crítica-do-outro. Para uma formação autônoma, precisamos ver o behaviorismo articulando realmente as críticas dos cognitivistas a ele dentro de sala de aula, e que também não simplesmente se justificando… ver ele incorporando seu próprio negativo, suas fronteiras, e admitindo a falta de recursos para dar conta de tudo. O mesmo vale para os cognitivistas, na contramão, e para os neurocientistas e os psicanalistas, e também para os psicólogos sociais e humanistas.

Mother Goose

A graduação em Filosofia, até onde ouço as pessoas falarem, tem para si, em toda a multiplicidade de suas abordagens, uma missão que é tomada por todos os docentes, e eles tentam cumprí-la. Querem formar, lá, um aluno capaz de ler um texto de Filosofia. Isso traduz-se num caminho para tentar conferir autonomia num novo campo, um campo que o ensino médio não contempla — o campo da leitura em Filosofia.

É importante notar que a autonomia é isso mesmo: muito menos que um estado geral do ser a priori de qualquer experiência (“sou autônomo.”) é mais um estado específico do ser que pode incidir sobre um campo das experiências mais-ou-menos delimitado (“sou autônomo no sentido de ler em Filosofia — embora ainda haja textos de Filosofia que não li, e alguns posso não ser capaz de ler”).

A PsicoUSP, embora possa até ter uma missão curricular, em teoria, não parece ter acertado em sua missão, porque essa missão não transparece a nós no cotidiano, na prática. Se pensássemos em um eixo, como a Filosofia tem em seu curso, qual seria? Num primeiro momento, acho que podemos pensar na própria leitura, e a Psico deveria formar um aluno capaz de ler um texto de Psicologia. Aí já teríamos uma primeira mudança radical; não há uma aula da Vertente X que ensine a ler qualquer crítica a ela feita pela Vertente Y, nem vice-versa. Como disse uma amiga ao ler uma crítica de Chomsky ao behaviorismo, “não consigo entender os textos desses mentalistas!”. Mau sinal, sinal de que tanto os professores “mentalistas” quanto os “antimentalistas” fracassaram severamente.

Além disso, que seria relativamente fácil (pois os textos de Psicologia — Lacans fora — são muito mais tranquilos que os textos da filô), nosso curso tem uma veia prática fundamental. Nos formamos não somente bacharéis em Psicologia (pelo menos a maioria esmagadora) mas também psicólogos. Para mim, então, a tentativa de encontrar um “eixo” em torno do qual todo o currículo (independente do departamento) deveria passar, poderia ir derivando ainda mais a ideia de ser capaz de ler qualquer texto de Psicologia para contemplar a ideia de que a formação para a prática viria para sermos capazes de ouvir qualquer pessoa.

A ideia da leitura de um texto poderia ser trazida para um termo mais favorável para a comparação, que é o de “discurso“, e aí há um paralelo que eu exploro assim: se um texto de Psicologia é um algo que ao se desenvolver aspira certa objetividade (aspira ser objetivo, ser útil para a ciência por não ser mera descrição de um particular que não é nem pretende ser transferível para qualquer outra situação), o discurso da pessoa que encontramos na prática de Psicólogo é um algo que ao se desenrolar aspira a subjetividade (aspira falar de si, de sua vida e de um particular, para o qual a pessoa procura alguém capaz de conseguir “transferir” aquilo para um “qualquer” geral; procura falar de algo singular mas buscando, mesmo assim, falar disso, colocar em termos que outros entendam). É uma simplificação grosseira, que pode me render textos para o futuro, mas fiquemos nisso.

Arrisco, nesse primeiro tomo, que um horizonte de “eixo” comum, em torno do qual gravitaria todo o esquema curricular, deveria ser essa dupla-face de abertura e autonomia frente ao discurso em geral, tomando como foco (já que “discurso” é muita coisa!) a dialética entre o particular e o universal, e entre o subjetivo e objetivo. De outro modo: articular a teoria dos livros com a prática com pessoas, saber escutar a pessoa na linguagem dela e trocar palavras desprendido da linguagem técnica, todavia não abandonar o referencial teórico no momento da escuta, nem abandonar o trabalho epistemológico e comparativo que deve ser dedicado a toda teoria. Aprender a ouvir teorizando e teorizar ouvindo, mas também saber ouvir como um todo, humanamente, permitindo que uma única frase faça a gente desistir de toda a nossa teoria, e por outro lado teorizar com teorias, ou seja, permitir um trabalho de reconhecer que uma coisa que pode “dar certo na prática” continua vinculada a um pensamento que a aborda, a define e portanto a determina, que veio de um lugar teórico e precisa ser pensado dentro do conhecimento em geral.

Tentarei, talvez no terceiro tomo, defender algumas ações mais “pragmáticas” nesse sentido. Mas talvez para ficarmos mais tranquilos seja interessante emprestar uma noção do pragmatismo semântico, uma tese central que diz que a definição de qualquer conceito se dá a partir da história que tem a aplicação desse conceito. Pois bem, talvez esse resgate e articulação crítica dos temas curriculares, por si só já tenha uma construção pragmática vital para a ação prática futura, e não estejamos em débito com o pragmatismo (apenas, talvez, com aqueles pragmatistas dogmáticos, que em nada se diferem dos cristãos dogmáticos, e que rejeitam o pensamento de qualquer espécie, diante de uma certeza tão falsa quanto a da própria salvação. Aqueles pragmatistas nada pragmáticos, que acham que tudo se trata de fazer qualquer coisa, contanto que se faça o mais rápido possível, e insistem sempre em cometer o mesmo erro…)

Terminada essa exposição, afirmo a necessidade de verificar o currículo como está hoje, principalmente no que toma a questão da sua meta. Se na prática não temos uma meta ou (como usei aqui) um eixo, não significa que ele não tenha uma… daí é questão de ver se precisamos criar uma meta, se precisamos criar uma nova meta, ou se a meta que existe já é boa o bastante, só não é praticada…

 Mother, of another mother?

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2 pensamentos sobre “Deformativo: A busca ativa do diálogo não-violento, a primeira visada de um eixo em três tomos

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