Brincos, Colares e a democracia

Escrito por Yuri (07)

O episódio da “conversa” com os meninos do Brinco hoje me suscitou algumas questões que acho relevantes serem pensadas e, claro, discutidas. Chego na Psico durante a “conversa” e cena que vejo é essa: a massa envolvendo três meninos durante uma espécie de tribunal popular. Não quero, aqui, debruçar-me sobre o conteúdo do texto deles: é bobo mesmo, sem graça e de mal gosto. Nada de novo até aqui.

O que acho importante colocar na roda é a maneira que a questão foi conduzida por nós. O preconceito já existe, é anterior ao texto e, ao que tudo indica, vai continuar existindo. Minha opinião é que, para atuar sobre o preconceito, não podemos negá-lo ou pensar que ele não deveria existir. Simplesmente porque é ineficaz. O pior da ideia de que algo não deveria existir (no momento em que existe) é que passamos a achar que ela constitui um absurdo. As consequências disso são o vimos nessa conversa: lágrimas, revolta, discursos inflamados. Não se trata, de maneira alguma, defender a obra desses meninos. Mas que, tratar as questões a partir dessa comoção coletiva é perigoso, danoso e ruim para qualquer espécie de encontro público-político.

Essa “conversa” não foi um episódio democrático, no qual chegou-se a qualquer resolução do conflito, mas um episódio para pensarmos como somos fascistas, principalmente quando lidamos com o fascismo. Chorar em público, frente à massa que nos apoia, causando comoção popular lembra demais qualquer comício nazi-fascista, no qual a emoção tem papel protagonista. Decidiu-se pelo que? Que eles deixem de escrever? Que é um absurdo esse tipo de coisa aparecer em nossa faculdade? Pergunto-me no que pensar assim muda alguma coisa. Se quisermos uma nova forma de fazer política, devemos pensar mais a fundo. Esse tipo de fenômeno é efeito do que? Talvez do jeito que a política venha sendo feita, pontual, recheada de palavras de ordem, desligada das práticas do cotidiano. A política do movimento estudantil foi assim apresentada aos bixos e a todos os outros. É assim que se faz política na Universidade: passamos meses sem fazer nada até um “absurdo” ocorrer, aí agimos, pois é necessária uma resposta. E como a democracia não é o cotidiano, atuamos assim, em massa, com palavras de ordem que nada expressam senão a nossa revolta com o “absurdo”. É muito pouco. Pessoalmente, não concordo mais com essa maneira de fazer e vejo muita gente tentando fazer diferente. Acho urgente rompermos com as amarras do continuísmo.

Juntar grandes massas em assembleias quase nada democráticas para deliberar de forma rasa, imediata, pouco refletida, é continuar com uma lógica de vida fascista. Pontual, emotiva e deliberativa. Qual o real sentido de deliberar em nome dos estudantes da USP ou os estudantes da Psico?  Deliberar sobre nomes que não estão pautadas no real, pois não existe coletivo dos estudantes da USP ou comunidade na Psico. Teve um velhinho barbudo que um dia chamou isso de ideologia. Soltamos ainda delegados-representantes para isso ou para aquilo, sem que tenham qualquer respaldo nos grupos que representam. Essa estratégia se mostra falha no sentido que não pensa na maneira que estas relações estão colocadas e acaba gerando apenas conflitos internos, irresolúveis, pois aqueles que não se sentem representados pelas decisões (e, de alguma forma, não são mesmo) lutarão para continuar assistindo aula e, portanto, a maior parte de certa energia política dos grevistas será direcionada para que as aulas não ocorram, no lugar de poderem de fato se debruçar sobre as questões que originaram a greve. Assim, urge a necessidade da constituição da própria comunidade. E isso não se faz com assembleias gigantes, mas no cotidiano, na atuação sobre as pequenas relações pessoais.

Por fim, não acho que a questão seja dedicarmos mais tempo a política. Mas usarmo-nos dele com uma qualidade maior, de maneira mais estratégica. Não instrumentalizar coletivos que não existem para determinado fim, mas atuar no sentido que eles existam. Pois eu acredito que aí poderemos criar um ambiente democrático de fato, que talvez possibilite uma circulação maior de ideias, a emergência de certa criatividade fundamental para chegarmos a consensos, diferente da careta realidade de nos rotularmos como a favor ou contra qualquer coisa.

Yuri (07)

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