A Carta Única – Sobre a assembleia da Psico do dia 16/11

Pilulamento: A assembleia tinha como pautas (a) apreciar aquilo que a assembleia geral dos estudantes da USP decidiu — ou seja: greve — e (b) ouvir e dar um encaminhamento à carta-síntese das discussões da Psico elaborada pela “comissão da carta” que se voluntariou no dia 11. O primeiro tema foi debatido em menor escala, e a assembleia em muito foi atravessada por novas temáticas. Por fim, a carta foi encaminhada [vê-la ao final desse post] e outra assembleia foi marcada para a sexta-feira dia 18, mas essa assembleia não aconteceu.

por Thiago “Betãosky” (10)

“Três Cartas para os Reis-Elfos sob este céu,

Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,

Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono,

Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

Uma Carta para a todos governar, Uma Carta para encontrá-los,

Uma Carta para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.”

I) Preliminares

     O IPUSP funcionou de forma muito interessante diante dos eventos trágicos marcados pela entrada da PM no campus no 8 de Novembro: houve espaços de discussão com algumas posições bastante interessantes, houve o nascimento de uma acampada com pautas muito diferentes da tradicional “responsividade” dos momentos pós-catástrofe uspianos, houveram ideias como um observatório de direitos humanos e a proposta de a escritura de uma carta para consolidar os vários dias de conversa que construímos.

         A sexta-feira 11 contou com um círculo-de-conversa com os professores Leon e Moura e a professora Marlene Guirado. Ao fim deste, alunos que se voluntariaram para redigir a dita carta-síntese das discussões IPeanas se reuniram, levantaram pontos e deram seguimento à redação ao longo de e-mails. Também foi marcada nesse dia 11 uma assembleia para a quarta-feira 16, que contemplaria as “3 categorias”, ouviria a carta e a encaminharia; essa assembleia seria também a abertura da discussão daquilo que a Assembleia Geral  encaminhou na noite do dia 8, ou seja, greve imediata dos estudantes da USP.

II) A informação e o Foco

            A assembleia desse dia 16 iniciou com alguns poucos alunos, que começaram a debater o assunto da greve e as alternativas a ela. A questão recaiu no atualíssimo tema da representatividade, a faca-de-dois-gumes que aponta não só para o Reitor como para o DCE e o Movimento Estudantil. Quando a roda cresceu e cresceu mais, algumas outras questões foram surgindo.

   A discussão foi atravessada por uma carta do pessoal da Pós, por uma proposta de intervenção na Congregação da Psico, por infinitas propostas de ação e informes de pessoas de vários cursos sobre os mais variados temas. Um saco. É claro que esses assuntos são de uma grande importância, sempre, mas todo esse atravessamento é sintoma de algo sério: a dificuldade de a informação fluir, na Era da Informação. Ninguém se conversa mais, se olha nos olhos, ninguém sente mais o clima do espaço para ver o que cabe ou não.

          Atualmente já não se chega perguntando aquele “vocês sabem disso que quero falar?” que pode economizar 10 minutos de repetição… mas enfim, o tema se perdeu e se perdeu e se perdeu, e quando a carta-síntese foi lida, já não éramos mais em tantos (a assembleia atingiu um máximo de 60 pessoas, creio, e começou o processo de esvaziamento.)

III) Uma Carta para todos trazer e na escuridão aprisioná-los

            E então começou o fenômeno já-conhecido. Vamos analisá-lo com cuidado porque ele toca uma questão central daquilo que foi a “demanda espontânea” da assembleia desde seu início, que era confrontar problemáticas de representatividade.

            A carta não erguia bandeiras fortes como “Fora PM do Campus”, afinal ela foi encaminhada como síntese daquilo que podia-se sentir como posição forte no IP, entre alunos, funcionários e professores. Nós, que redigimos a carta, privilegiamos pensar a contradição da polícia, que exerce uma função dupla de proteção das pessoas e repressão delas, o repúdio ao ato desproporcional do dia 8 e à maneira antidemocrática que o reitor atuou nesse episódio, consoante com seu modo geral de lidar com questões da comunidade acadêmica.

            Isso tudo porque uma meta muito curiosa se instaurou: uma carta que pudesse ser assinada em nome de Alunos, Funcionários e Professores. E volta o problema da representatividade, com toda a força, aqui! A carta precisava ser representativa, o que tirava as chances de ter enormes bandeiras senão através de ser mentirosa em relação às posições da Psico, que congrega pessoas com opiniões diametralmente opostas entre si. Mas uma Carta síntese das múltiplas determinações das opiniões do IP, uma Carta para todos governar, por que ela é tão desejável?

            O que parece é que ela é desejável por ser cara na moeda do atual modo-de-pensar a política, que é o sistema representativo, marcado pelo voto e pela noção de maioria. Precisamos de uma carta que congregue Todos, expresse a opinião de Todos, se isso acontecer ela será o Mais forte possível. Dou graças a Deus de não estarmos em um espaço em que a intersecção da opinião de todos resulta em um conjunto diferente do vazio. Não há opinião-de-todos no IPUSP, e essa é a jogada toda para neutralizar espaços.

            Colocar o unânime como mais forte é garantir que a própria comunidade se neutralize, unanimicize-se internamente, nivele por baixo suas posições e exclua tudo que é divergência com a intenção de ser mais forte. Almejar a Carta (com esse C maiúsculo) é esvaziar o conteúdo dela. Será sim, um elemento forte. Mas será já a Carta que é forte, e não quem a enviou, e a Carta não corresponderá realmente a nenhum de seus escritores, nem responderá a eles; eles que responderão por ela. A escolha do trecho do Senhor dos Anéis no início não foi a toa. A Carta é como o Anel, que surge para dar força ao sujeito, mas com isso o aniquila.

IV) A flaw in the plan

            Por outro lado, vemos outra força que se coloca na busca pelA Carta. Se a carta não é representativa senão quando vazia de conteúdo, e precisa ser o-mais-representativa para ser o-mais-forte possível, há aqueles que simplesmente querem se aproveitar que a burocracia lhes dá direito de se autodenominarem representantes, para assim encher a carta-vazia com um conteúdo próprio, ao seu bel-prazer, e com isso ter algo forte em mãos.

            É como Harry Potter, que vence Voldemort, no último livro de sua saga, através de uma questão medíocre do direito-civil bruxo. Baseado na burocracia de “quem tem o direito à Varinha Anciã”, ele vence um tolo Voldemort, que não havia percebido a falha em seu próprio plano. Parece exatamente isso, nA Carta; alguns têm a fé de vencer o esvaziamento promovido pela burocratização fazendo-o por dentro da burocracia, ou vencer um reitor que é ele mesmo um grande sintoma da falha absoluta do sistema representativo fazendo-o  por dentro da lógica representativa.

            Mas não foi Harry quem venceu Voldemort. Foi uma seqüência obscura de coincidências e trâmites implicados na Varinha Anciã que levaram-no a consumar como uma marionete algo que já estava determinado. Quem venceu foi a própria Varinha, o Meio se mostrou como sujeito, como vencedor. É claro que alguns se frustram ao chegar a uma assembleia que vota uma carta vazia. Mas encher essa carta é unicamente ajudar a sustentar a economia que a produziu. Querer deformá-la para que um “fora PM do campus” consiga inocentemente figurar entre suas linhas é a perversa tentativa de obter algo como uma mais-valia da despolitização. Bem, assim como quem ganha com a mais-valia é o Capital, aqui quem ganha é a  real alienação.

V) O filme precisa acabar

            Mas o que o pobre Harry deve fazer? Entregar-se a Voldemort e permitir que este o mate, ao invés de usar a Varinha Anciã? E o que Frodo deve fazer? Largar o Anel para que este não o domine? E nós, vamos fazer o que? Parar de escrever cartas senão aquelas que assinamos em nosso nome, e que nunca serão lidas?

           Bem, tenho visto por aí, no facebook e na arte, que a estética conta muito para sua carta pessoal não morrer inócua. Mas enfim, é um esquema montado que nos impele a Cartas, Anéis e Varinhas que nos dominam e esvaziam, e não podemos negá-lo por negação simples, indo para uma aldeia hippie. Ou melhor, podemos, mas eu vou falar aqui com aqueles que não farão isso. A questão toda é trazer na varinha e na carta a negação determinada que elas contém, ou seja, lembrar sempre que há uma contradição nessa lógica que faz a Carta ter de ser unânime para tentar a onipotência.

            Não perder, jamais, a contradição de vista. Lembrar da natureza de nosso objeto, da força que ele pode ter e do preço que se paga por essa força, lembrar tudo aquilo que nossa Carta pode sustentar, e lembrar que incluir a crítica a isso tudo dentro dela pode ser uma boa maneira de colocar a contradição na cena, tirando-na do backstage.

               Frodo tinha aquela lava da montanha da perdição, e essa criatura  desagradavelmente dialética (acima) que desejava o Anel tanto quanto ele, levando ao fim-do-filme. Já Harry tinha a “força do amor” e a estupidez de abdicar da Varinha Anciã. Cada um se vira com o que tem, mas o filme só vai acabar quando só coadunarmos com essas Cartas contemplando-nas em toda sua dimensão patética e poderosa , e visando trazer no bojo de nossa versão delas a célula-negativa cancrosa que a leva ao suprassumir destrutivo.

VI) Epílogo Anexo: A Carta (tan-dan-dannn)

            Apesar de rodeios e rodeios, a Carta saiu como a Sociedade da Carta a redigiu. O que foi, mais-ou-menos, assim:

            Comunicamos que a comunidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, na assembléia dos professores, funcionários e alunos do dia 16 de novembro de 2011, deliberou pela manifestação de seu inteiro repúdio à violência da Polícia Militar na operação de reintegração de posse do prédio da Reitoria da Cidade Universitária, ocorrida no dia 8 de novembro de 2011, bem como a detenção e criminalização dos estudantes que a ocupavam. Repudiamos não apenas a brutalidade cometida neste episódio, mas toda instrumentalização da violência como forma imediata ou incontornável de manutenção da segurança pública, seja patrimonial ou, principalmente, humana, em qualquer âmbito da sociedade.

         Não compactuamos com a violência e o atropelamento dos direitos humanos como um apêndice da suposta manutenção e promoção de segurança, institucionalizada ou não. Avaliamos que quando um órgão de segurança do patrimônio e da integridade física das pessoas, no campus da USP, atua ora como proteção e ora como repressão e violência, trata-se da lamentável repetição das contradições já sofridas pela sociedade no seu cotidiano. Mas se acreditamos no papel fundamental da extensão universitária e em nossa participação e articulação com a sociedade, teremos de reafirmar a função fundamental da Universidade de São Paulo: pensar, pesquisar, praticar e oferecer diferentes alternativas aos problemas sociais.

         Manifestamos ainda nossa insatisfação com o modo anti-democrático com que a reitoria avalia e decide soluções às questões fundamentais do campus universitário. Entendemos que este episódio denuncia a precariedade das atuais formas de diálogo entre reitoria e comunidade USP. O isolamento administrativo de João Grandino Rodas, e seu inaceitável consentimento com a violência, são sinais críticos de que necessitamos da construção de novos espaços de discussões na Universidade de São Paulo. Queremos discutir estas e outras questões com toda a comunidade USP, tão carente de articulação entre seus cursos e suas unidades.

 

Assembléia de Alunos, Professores e Funcionários do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
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2 pensamentos sobre “A Carta Única – Sobre a assembleia da Psico do dia 16/11

  1. O que me estranha é que não foi feita nenhuma menção na carta sobre a posição do “IPUSP” sobre a forma como os estudantes agiram na invasão da reitoria. Isso, pelo menos pra mim, soa meio unilateral. Essa carta, do jeito que está escrita, pode servir muito bem para oposição ao Rodas, ao governo e sua política, e não tenho nada contra esse caráter, mas tende a reduzir a discussão sobre segurança do campus, movimento estudantil e a pertinencia da USP para a sociedade, o que, creio eu, sejam as questões mais importantes suscitadas pela invasão dos estudantes na reitoria, suas reinvidicações, e a forma que a presença da PM se efetivou para a reintegração de posse. A sociedade “lá fora da USP, no mundo real” quer entender porque a gente briga tanto na prática para que nossa querida USP seja um ” Céu na Terra” enquanto apenas verbalizamos em jornais e teses academicas que nunca são postas em prática o quanto desejamos que o mundo “lá fora” seja esse céu na Terra. Tem algo de errado aí

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