Sobre o debate do dia 1/11

A chapa Mãe-de-Pano participou de um debate com a chapa Para Matar a Sede na hora do almoço do dia 1/11.

Algumas questões levantadas tiveram pouco tempo para ser aprofundadas — o mal necessário de um debate acaba sendo o pouco tempo para falas, paciência.

Venho aqui complementar um pouco do que a nossa chapa defende, a fim de seguir os modelos de democratização da informação pelos quais prezamos.

I. A questão partidária

Nossa resposta sobre a atuação de partidos no CA deixou a desejar. Algo curioso na medida em que um dos problemas centrais que aflgiam todos da chapa ao início da nossa construção coletiva de propostas era exatamente a temática partidária e sua relação com o CAII. Creio que a questão também não foi apreciada com a devida profundidade pela outra chapa, pela limitação temporal que todos sabemos que existe.

A minoria numérica de pessoas de partido na outra chapa não proporciona, jamais, a certeza de que o discurso dos partidos políticos não será hegemônico. Isso foi colocado, mas é falacioso. Na verdade só faz sentido pensar nesses termos se estamos coordenando um aparelho que reprime as minorias ou as dá menos voz, por serem minoria, o que eu espero, de coração, que não seja da praxis da chapa PMS. Pelo contrário, hegemonizar o discurso e buscar homogeneizá-lo não é prerrogativa de maiorias, e sim um atributo do próprio discurso e da maneira como ele se estrutura; vivenciei no início da gestão de 2011 do CAII a situação de, mesmo sendo os partidos políticos uma minoria na gestão, ter minhas questões políticas pouco-acolhidas e de ver uma estrutura de pautas característica — especialmente por se aproximar sempre da capa do Opinião Socialista mais recente — imperando e castrando todas as minhas tentativas de articular o único tipo de discussão que eu desejava: as que visavam a conscientização, a ampliação do debate na Psico e a construção de um Centro Acadêmico que fosse referência para os alunos se colocarem politicamente.

Alguém fez a pergunta sobre pautas alienígenas — ou, para ousar com a contradição atual que ronda os “marxismos”, alienadas — que caem de cima para baixo nas reuniões do CA. Isso será evitado pela Mãe-de-Pano, se ela se eleger. As pautas, embora dificilmente tratem de problemas pessoais, precisam ser defendidas enquanto tema por alguém. Não se pode tematizar tudo, é uma faceta fundamental da condição humana que se precisa aprender. Tendo isso em vista, resta aos humanos e às suas organizações políticas escolher temas entre todos os temas; para isso, as pautas têm que fazer sentido, precisam ser prioridade, para então poderem ser pautadas e tomar o tempo — que não é infinito — dos espaços deliberativos e decisórios. Não tem sido isso o que podemos ver na prática dos partidos políticos, nos mais diversos espaços do Movimento Estudantil dos quais eles participam enquanto tais. Ainda assim, a participação das pessoas que compõem partidos é tão desejada quanto a de qualquer pessoa — ou seja, é totalmente desejada.

II. A ausência de programa

Um programa que se abstém do hic et nunc das questões pontuais, que não faz “promessas de campanha” — tradicionalmente (por conta da própria estrutura da nossa “democracia””representativa”) usadas como alienação e compra de votos pelo plano emocional –, enfim, um programa que não fecha uma multiplicidade de ações específicas e cirúrgicas para o próximo ano, nem por isso está descaracterizado enquanto programa, como se quis colocar. Há concepções de programa que fecham-no para listar metas, as grandes empresas e os deputados adoram-nos; não precisamos realmente de algo tão superficial

O debate foi uma ferramenta interessante para se perceber quais questões concretas urgem por ações do CA na Psico, e é em espaços como este que a Mãe pretende consolidar propostas de ação pontual. Vamos agir, vamos estar agindo a todo o momento. O diálogo com os RDs — que é quase um monólogo, na medida em que vários dos RDs mais ativos de 2011 também compõem a chapa — é uma indicação clara de que queremos dar continuidade a um modelo de gestão ativo. Os RDs estão se aproximando dos professores e buscando se infiltrar na temática eleições da Diretoria do IP, e isso é uma ação real na direção de agirmos por uma eleição mais democrática. Não uma agitação das massas com uma lista de imperativos. É importante a perspicácia de quem vota para perceber até que ponto um discurso está mastigado demais para ser engolido, desconfiar da esmola farta como todo bom santo faz.

Democratizar a informação é o passo fundamental para se compreender o programa da Mãe e a astúcia que ele carrega ao propor uma real autonomia aos estudantes. Você lê, você toma uma posição, você é capaz de saber quem quer articular debates sobre um tema com você e você faz isso. O CA precisa ser uma referência, o catalisador da reação química, que não precisa compor cada produto dela para ser um componente fundamental a ela. Manter um blog, como este que vos fala, ressucitar um boletim periódico (que seja realmente contemplado pela diversidade dos estudantes), mostrar a cara, divulgar relatorias, pautas, promover grupos de debate e trabalho sobre temas relevantes aos estudantes da psico (e isso com a didática e a consciência necessária para não esvaziá-los todos), ampliar o espaço de convívio e reconquistar a publicidade da coisa pública, do chão que come nossos sapatos no ir-e-vir das aulas. Isso não é programa? É isso que é a democracia, falando materialmente, falando no cotidiano. É isso que a Mãe propõe.

 III. O problema das falsas-questões

Outro ponto importante é evitar que a ausência de respostas a algumas questões seja encarado como sinônimo de falta de posicionamento demarcado. Rejeitar dar um “sim” ou um “não” à pergunta feita pelos jornalistas sobre “você é a favor da Empresa Júnior da Psico?” ou “você concorda com a presença da PM no campus?” é o mínimo que se pode fazer para não destruir a questão.

É um cenário ideológico que cria as perguntas às quais alguns respondem com “quero a PM” e outros respondem “não quero a PM”. É exatamente o mesmo cenário ideológico que leva às respostas “sou direitista”, “sou esquerdista”, “sou centralista (?)”, tão esvaziadas ultimamente, e é também esse cenário que leva a “sim EJ”, “não EJ”, antes de qualquer debate, qualquer aprofundamento da questão.

Uma superação dessa linguagem, uma apreciação crítica de como a questão é colocada, disso eu não prescindo, e essa é minha posição. Ler criticamente as diferentes versões possíveis da Operação FFLCH, fazer a análise política da situação e pensar algo que escape à pergunta “sim ou não PM?”, algo que encare o problema de segurança na USP como mais que um jogo de cara-ou-coroa, afinal ele não é um jogo de cara-ou-coroa. Do mesmo modo, uma Empresa Junior é simplesmente um CNPJ somado a poucas páginas de especificação legislativa e alguma fama de experiências próximas que temos com elas. Isso não serve para responder nem à mais miserável das questões que se possa por sobre o assunto. Qual o projeto de Empresa Junior proposto, como isso se construirá, etc. Isso é o mínimo necessário para pensar, e isso só é possível negando aquele “sim” e “não” que se misturam e formam o ruído assustador que serve de música para a Ideologia coreografar livremente uma dança precisa.


Thiago “Betão” (ben-10)

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