Centro Acadêmico: Legitimidade, Representatividade, Eleições, e o velho problema das palavras e das coisas.

Enunciar que o Centro Acadêmico deve ter uma Legitimidade garantida nas Eleições para que assim seja Representante dos estudantes ao exercer, em sua gestão, suas propostas de carta-programa traz no colo a naturalização de muitas questões, e qualquer um que fomenta o pensamento crítico, embora até acredite que as coisas são mesmo como foram internalizadas, deve se debruçar para refletir sobre esses valores e o que eles acarretam.

Curioso que essa é a própria questão de Hegel ao pensar a ciência em seu tempo — nada muito diferente da atual, em essência — que se baseava no pensar representativo: há uma palavra que representa uma coisa, e a palavra invocada — por ser compartilhada pelos falantes — é por si mesma desambiguadora, pois só tem um referente, uma coisa a que se refere. O problema que Hegel levanta é justamente o de que há uma inadequação fundamental entre representação e objeto, que não deve impedir, pelo contrário, o pensar representativo, mas que inegavelmente revela outra coisa que não a correspondência entre palavra e coisa. O pensar representativo revela algo das estruturas da própria linguagem e da própria história, de um itinerário que formulou determinados universais que não precisam ser questionados. Esta tela de computador. Todas as telas são uma “esta tela de computador”, a minha que te escrevo, a sua que me lê, e a de um terceiro que não conhecemos. Essa crise da relação entre palavras e coisas que Hegel levanta leva a um desespero que é humano e tem de ser pensado: o que são essas palavras que os outros ouvem eu falando mas que se referem a qualquer coisa diferente daquilo que eu disse?

A coisa toda acima implica necessariamente uma questão de sobrevivência ética, ao se estar entre humanos: há uma necessidade intrínseca ao falar, que diz respeito a abrir a posibilidade de os fenômenos e a realidade material negarem aquilo que entendíamos por nossas palavras. Pensando em Representatividade estudantil, é fundamental voltarmos a ela não como um “é claro que um CA precisa me representar!” mas sim com toda a problematização de: “é possível, dada a nossa realidade, que um CA nos represente? É desejável pautar minha política (meu ser na polis, meu agir e mudar minha comunidade) nos fundamentos falidos da democracia representativa, da qual os partidos políticos, mesmo os da extrema esquerda, são cúmplices e dependentes?”

A legitimidade que se atribui é essa: o CA é legitimado por mim para me representar. Até que ponto faz sentido enunciar essa frase? Até que ponto faz sentido propagar e panfletar esse tipo de valores?

É por isso que fica difícil dizer “qual a nossa promessa de Chapa para quando conseguirmos legitimidade”, porque a principal premissa é que não haja promessas de legitimidade, mas de que necessariamente um espaço em que essas palavras abstratas, distantes e valoradas por um sistema moral autônomo e alienígena, possam ser repensadas e excluídas politicamente, se for o caso.

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Um pensamento sobre “Centro Acadêmico: Legitimidade, Representatividade, Eleições, e o velho problema das palavras e das coisas.

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